Excursionar, fazer um passeio como quem observa da janela do trem uma seqüência de paisagens que passam e deseja ardentemente “incorporar” cada uma delas. Criar é perenizar situações que, por si, são efêmeras. Situações multissenssoriais; que manipulamos, ouvimos, cheiramos e ingerimos na nossa vivência cotidiana. Ostrower (2005) escreve que todas as vivências são impregnadas de formas e que são, portanto, matérias de criação. Inclusive atos corriqueiros, como atravessar a rua e observar o redor à nossa maneira: de inúmeros estímulos que recebemos a cada instante, relacionamos alguns e os percebemos em relacionamentos que se tornam ordenações.
O censo comum considera criatividade privilégio dos gênios e artistas: Comumente rotulamos a pessoas como “criativas” e “não criativas” de acordo com o grau de inovação das coisas que elas produzem. Esta idéia, no entanto, é parte de um equivoco. Não é necessário estar inspirado para criar. O ato da criação não é mágico, como muitos pensam. Ele é muito mais um processo que um “estalo”; até os insights são resultados de árduos trabalhos mentais, ainda que inconscientes. Criar abrange, portanto, a capacidade de compreender, e esta, por sua vez a de relacionar, ordenar, configurar, significar (OSTROWER, 2005, p.09).
Outro autor, JUNIOR (2000, p. 05) “poetiza”: Toda ingestão pressupõe uma excreção (...) os excrementos das imagens que devoram imagens serão sempre mais imagens. Assim, podemos dizer que todas as situações vivenciadas pelo nosso corpo terão de ser excretadas de alguma maneira; serão recontadas em novas imagens, sons, cheiros, em novos materiais. Somos portanto, seres “potencialmente criadores”, dormentes ou despertos.
JUNIOR, Norval Baitello. As imagens que nos devoram. Antropofagia e Iconofagia. São Paulo: 2000, disponível em: http://geccom.incubadora.fapesp.br/portal/referencias/textos/baitello/iconofagia.pdf
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: 2005 19ªed.
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