segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Conhecido

Barulho lá fora. E uma luz insistente atravessando o opaco da Cortina azul. Como pulsação, metáfora, constância.

A cama, dentro, parece girar em torno de seu eixo, sem eixo. Um imenso caleidoscópio de confusões, desesperos, cores. Nas narinas, o cheiro da pérola, na ponta dos dedos o tracejado de outros textos. Resquícios insistentes e furtivos. Chamados, desejos.

Mas a conversa é outra: um choque entre as personalidades. Palavras provocadoras, afrodisíacas. Corpos separados pela distância física, irritante.

Conversas mediadas, antigas; várias vezes seguidas pela minha irritação pelo meu incômodo e pela vontade do nunca mais.

Sentimentos efêmeros.

Vejo-me, noutro dia, presa à mesma teia, aos mesmos impasses e, agora, aos mesmos desejos.

Já viu o mar. E coleciona retratos e relatos e breves histórias. Lê, entende da vida e dos projetos de vida. Filosofa, discorda critica, sempre.

E é essa criatura que eu, pérola urbana e furta-cor, extremo oposto, desejo comigo nesta noite. Com as inquietudes, com as contradições. Quero o beijo, o retrato, a lambida.

A mordida até verter esse grito insistente que de mim discorda.

Quero o passeio pelas texturas, pelo mamilo. Uma parada em algum ponto que lhe faça gemer e que me irrigue, corpo e alma, com fluídos do desejo.

Quero o voltar para a boca, o entrelaçar das linguas e das diferenças, as brincadeiras, o toque e o cafuné. Quero esse momento, doce e selvagem.

Quero-lhe duro. Para que penetremo-nos corpo. Penetremos as almas, no movimento insistente dessa luz que atravessa minha janela.

Quero gemer de prazer, incomodar a vizinhança, brincar com tempo, quebrar a cama, sujar as roupas, manchar a mácula. Que você me adentre por uns instantes, que sintamos o encaixe, destaque, diverso.

Que sejamos unos e falemos, sem palavras, a mesma lingua, para depois descansarmos dos desejos e dormir num abraço de opostos…

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